Arte efémera [Ephemeral art]


A obra de arte é todo um conceito desenvolvido há séculos que por norma é alvo de uma persistente vontade humana de querer ir contra a natureza efémera das coisas, até contra a sua própria efemeridade. Na medicina, por exemplo, desenvolve-se cada vez mais, processos que fazem do corpo, matéria experimental da sua própria resistência no tempo ao longo dos tempos. Esta característica é fundamentalmente humana; é-nos intrínseco à condição fervorosa da vida querer viver mais. Isto aplica-se também ao que criamos – artefactos, objectos com algum valor simbólico e pessoal, objectos do nosso quotidiano, entre outros. Nas questões sociais também se aplica – querer que o amor seja eterno, não querer perder o seu melhor amigo, querer acreditar que Deus existe, etc. Contudo, a meu ver, isto acaba por ser uma forma que temos de nos confortar perante a dor de saber que um dia morreremos, e tudo deixará de fazer sentido quando isso acontecer, porque nada disto será, então, e pela inevitabilidade de retorno à vida, possível de ser concretizado. A questão, aqui, reside na não aceitação do Eu ser efémero.


A obra de Arte, se for estabelecido aqui um paralelismo com o que foi escrito acima, é também ela como um ser vivo: tem emoções e expressa-as para quem a sente. Ao ser apresentada num espaço que lhe é alheio (isto na área das artes plásticas), ela intimidasse, amedronta-se, transforma-se, resiste ao espaço e não se molda ao ambiente que a rodeia. Isso é sentido pelo indivíduo apreendedor da obra de arte, de forma inconsciente.


A raiz deste problema reside na sua origem, no espaço onde a obra é feita. Esse espaço, definido por alguns como o “espaço materno”, como é o caso do artista plástico italiano Claudio Parmiggiani, é o espaço de concepção da obra, da sua invenção. Só aqui se pode sentir a força pura de uma obra de arte e da clarividência da sua relação com o espaço, e isso transporta-nos para uma interpretação mais objectiva sobre o que se sente, pois são apercebidas as origens que estão inerentes à sua criação.


Quando se retira a obra do “espaço materno” é como retirar uma criança da sua mãe; é imoral. O espaço que a “acolhe”, como se de uma mãe adoptiva se se trata-se, é um espaço que vai oferecer resistência de relações na adaptabilidade da obra. Portanto a obra quando transportada para um novo espaço, prende-se à relação “materna” que tinha no outro espaço, e aqui é que reside a problemática de hoje em dia; a relação da obra com o espaço e de ambos no triângulo que é completo pelo indivíduo apreendedor ou simplesmente o observador.


Esta é a característica mais clarividente que me permite fazer esta analogia entre uma obra de arte e um ser vivo, contudo o ponto a que quero chegar é o da efemeridade dos objectos. Todos os objectos, sem excepção, têm tempo de vida. Mais tarde ou mais cedo acabam por deixar de funcionar e são postos de lado até que se desintegrem materialmente ou são destruídos por catástrofes naturais, ou pela própria humanidade que o criou através de guerras militares. Portanto e partindo deste princípio, as obras de Arte não são eternas, mas são alvo de conservação exaustiva.


O humano, da mesma forma que vê nele uma utópica possibilidade da eternidade, também vê naquilo que cria ou na maioria das coisas que cria, essa mesma possibilidade de eternidade. Um dos exemplos que posso aqui deixar é dos frescos de Veneza. Veneza tem como característica ser uma cidade muito húmida e a par de muitas outras beldades tem belíssimos frescos. Os frescos de Veneza estão simplesmente na cidade errada. A humidade é inadequada à longevidade de frescos porque os destrói. São feitas verdadeiras sessões de recuperação para tentar restaurá-los, mas são sessões em vão. Não haverá retorno ao mais que previsto desaparecimento destas preciosidades da história da arte. Apesar disto os registos que já se tem desses frescos, são senão a única réstia de esperança que nos vão certamente fazer lembrar como eram belos os frescos de Veneza, por isso enquanto os podemos ver aconselho a toda a gente a fazer uma visitinha à cidade, também antes que esta desapareça engolida pelos seu próprios canais de água ou antes que a “estrela da vida” rebente.



The work of art is a concept developed centuries ago that is the result of the persistent human appetite to defy the ephemeral nature of things, even against his own ephemeral self. In medicine, for example, more and more processes are being developed to experiment the resistance of time on the human body. It is an intrinsic human feature: we want to live longer. This also applies to what we create – artefacts, objects with symbolic and personal value, everyday objects, among others. In the social circles this is also present: we want love to be forever, we don’t want to lose our best friends, we want to believe God exists, etc. However, I think this is only a way of comforting ourselves from the pain of knowing that one day we will die and that when that day comes, none of this will make sense anymore because it won’t happen due to the impossibility of coming back to life. We’re talking about the non-acceptance of the ephemeral self.

If we establish a parallelism between the above and the work of art, the latter is also seen as a human being: it has emotions and it reveals them to those who feel it. By being displayed in an unknown place (in contemporary art), the work of art becomes intimidated, fearful, transformed, resisting to space and not integrating itself in the area it’s in. This is perceived by the individual who apprehends the work of art, unconsciously.

The core of this problem is in its origin, where the work of art if conceived. That area is defined by some as a “maternal space”: the Italian contemporary artist Claudio Parmiggiani believes this is the space of the creation of work, of its invention. Only in this “maternal space” can the authentic strength of an artwork and its intuitive relation with space be recognised. That’s what transports us to a more objective observation about what we feel because we realise the origins behind the creation of the works of art.

When the artwork is taken away from its “maternal space” it is like taking a child away from its mother: it’s immoral. The space that takes it in, as if it was an adoptive mother, is a space which offers relationship resistance in the adaptability of its piece. So when the artwork is taken into another space a problem arises because it had developed a motherly relationship with the previous location. This is the problematic of today: the relationship between the work of art and its space and of both in a triangle completed by an apprehensive individual or simply an observer.

This is the most obvious characteristic which allows me to make an analogy between the work of art and the human being. However what I want to point out is that objects are ephemeral. All objects, without exception, have a lifetime. Sooner or later they will all stop functioning and will be put aside until they disintegrate materially or are destroyed by natural catastrophes or by the humanity itself that created them through military wars. Taking this into account, the works of art are not eternal, but are targets of exhaustive conservation.

In the same way the human being sees in himself a utopian possibility of eternity, he applies that same possibility to all he creates. As an example for this I can mention the frescos in Venice. Venice is a very humid city and among its beautiful art, astonishing frescos can be contemplated. But the Venice frescos are in the wrong city. The humidity is inadequate to the longevity of these paintings because it is destroying them. There are recovery sessions taking place to try to conserve the frescos, but they aren’t working. There will be no way of recovering the long expected disappearance of these precious artworks that mark the history of Art. The existing registers of the frescos are the only hope that will certainly remind us of how beautiful they are, so while we can still appreciate them live I advise everyone to make a little trip to Venice, also before it disappears swallowed by its own canals or before the “star of life” bursts.



Escrito por [Written by]: Jorge Reis


Translated by: Maria José Anjos


Ler também [Also read]: O actual estado da Arte [State of the Art]




Comente este pensamento[Coment this thought]



Add to FacebookAdd to NewsvineAdd to DiggAdd to Del.icio.usAdd to StumbleuponAdd to RedditAdd to BlinklistAdd to TwitterAdd to TechnoratiAdd to Furl

About these ads

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s