Entrevista com Zé Neto [Interview with Zé Neto]

notaEsta entrevista é um exclusivo do Arthoughts
[This interview is an exclusive from Arthoughts]

in English soon


Jorge Reis – O título da exposição remete-nos para a condição economicamente fragilizada que se encontra o mundo. É isso que pretende mostrar na exposição?

Zé Neto – Começo por saudar todos com uma citação de um autor da música popular Brasileira, cuja mensagem estimo bastante:

«… Tô te explicando prá te confundir. Tô te confundindo prá te esclarecer…»

Tom Zé

Estas palavras bem se poderiam aplicar – não só à minha arte – mas também à minha maneira peculiar de ser social. Assim sendo convém informar previamente os leitores de que o meu discurso teórico, se dá num campo filosófico (por filosofia entendo a tendência questionante e investigadora radical ao nosso pensar, a qual oscila entre Ciência e Religião) transdisciplinar (por transdisciplinaridade entendo a livre atitude de gestão – por articulação transversal – de conceitos oriundos de diversas áreas do saber), o qual é fruto de muitos anos de reflexão, e que pretende alcançar a simplicidade e não apenas mais um hermetismo. Tal seria facilmente confundido com petulância. O que fundamenta as minhas obras é o meu pensamento como filósofo, e na base deste está a minha experiência de vida prática. É claro que como filósofo trabalho os conceitos e é através deles que escrevo. Se cada conceito tem um significado histórico, um valor sentimental específico, um peso inconsciente significante e um alcance pedagógico próprios, então esse contexto deve ser referido na íntegra. A isso eu não me furto. Sei que esta minha prática não é comum aos artistas, pois geralmente delegam nos críticos, ou historiadores de arte a narrativa justificadora daquilo que fazem. Como considero que ninguém – melhor que nós próprios -, pode dizer o que vai dentro do nosso ser, opto ser – eu mesmo – o narrador dos fundamentos teóricos da minha práxis artística. Bem sei que o meu discurso é denso. É o meu discurso, o qual ocorre sem preocupações exegéticas de querer ser entendido por aqueles que apenas querem entender as suas preferências e ignorar tudo aquilo que me esforço por explicar. Este é o meu discurso e é o que é. Não vejo que pudesse ser de outra forma, dadas as limitações da linguagem (em especial da escrita), ou seja, o leitor ao ler estes caracteres está a aceder ao meu conhecimento – através de argumentos – e nunca à vivência da minha experiência. Por isso faço arte. Porque exprimo exactamente o que quero sem necessidade de conceitos.

Dito isto vamos ao que interessa… Ao intitular esta exposição “Crise – o paradigma dominante” eu não estou simplesmente a referir-me a um registo especializado e circunscrito à economia, mas estou antes numa abordagem mais lata. Mas dividamo-la para que a possa ser melhor explicada:

1 – Por um lado fui buscar a palavra “crise” porque esta na sua etimologia grega “KRISIS” significa; a acção ou faculdade que possibilita distinguir, julgar, escolher, contestar em justiça – aquando de um impasse. Por vezes esta palavra ainda se refere à fase decisiva de uma doença ou mesmo à necessidade de interpretação de um sonho. Conforme vemos o significado originário nada tem a ver com o contexto pessimista que lhe é atribuído actualmente. Ciente disso, foi minha intenção recuperar alguma dessa explicação arcaica e concluir que uma crise é simplesmente um momento decisivo de balanço. Sob esta perspectiva mais isenta e transparente posso afirmar que a nossa vida individual é constituída por uma concatenação de crises. É em função destas que nos assumimos e decidimos o que fazer daí em diante. Assim como cada um de nós temos as suas crises, as sociedades também as têm obrigatoriamente. E a crise é tão maior quanto o será a sua escala. Como actualmente se convencionou que tudo é global a ênfase é maior. Mas ainda maior é a confusão porque a globalização pretende entender todas as culturas segundo um pensamento único de cariz economicista, o qual foi produto da tendência expansionista de toda a cultura ocidental.

2 – Ao focar o “paradigma dominante” estou sobretudo no registo da epistemologia (investigação acerca das condições de possibilidade do sujeito conhecente – geralmente associada à Ciência). Ao estar no campo da epistemologia estou a investigar não só a base da Ciência, mas sobretudo a consciência daquilo que nos é permitido conhecer como realidade (tudo o que existe).
Depois de explicados estes dois pontos, posso dizer que pelo facto de ter denominado “crise”, tal não quer dizer que tenha a ver directamente com a ocorrência mediatizada da qual tanto se fala. No entanto também tem a ver com ela. Sabe que a economia – nas sociedades históricas – tornou-se uma consequência somatória de todos os actos humanos. A economia tem a ver com a tendência habitual para o repouso que o ser humano tem. Como cada um gosta mais de descansar que o outro e foi isso que gerou o poder. Esse poder gerou as posteriores clivagens convencionais entre humanos, que denominamos; classes sociais. Convém termos uma consciência histórica que desde muito cedo o Homem inventou métodos simbólicos que se destinavam a gerir os recursos materiais e a fazer negócio (como negação do ócio). Assim – devido à sua raridade e perfeição – surgiram bens mediadores de outros bens, os quais passaram a representar um valor relativo a tudo o resto. A princípio terão sido os metais em geral. Depois aqueles metais mais nobres, de entre os quais o ouro. Depois evoluiu-se para o papel-moeda, que tinha uma paridade (forma de equivalência) ao metal precioso existente nos cofres dos Estados. O problema é que com a invenção do “dinheiro plástico” e mais actualmente – graças ao crédito – deixou de haver paridade entre o capital circulante e qualquer outro bem de valor. Já não há as garantias materiais de referência que havia dantes. Podemos dizer que o símbolo monetário perdeu a referência e já é valor em si mesmo. O problema é que um símbolo sem referência – mais cedo ou mais tarde – passa a valer nada.
Esta minha exposição “Crise – o paradigma dominante” não nos remete simplesmente para esta crise pontual mas para a verdadeira crise que sempre esteve presente na base do pensamento humano. Aquela da separação Homem-Natureza. Veja-se como a mentalidade humana tem evoluído. Por uma lado há um apelo constante à preservação dos valores da tradição por outro ao progresso (do Latim PRÓ + GRESSUS = passos em frente). Mas o progresso está cada vez mais distante da tradição e do equilíbrio natural. Então ocorre ciclicamente um facto simples. Quando a realidade se distende demasiado surge a ruptura – a que chamam erradamente – crise. Esta exposição não nos remete apenas para a condição economicamente fragilizada em que se encontra o mundo, mas sim para a condição mentalmente fragilizada em que se encontra o pensamento humano.

JR – O que moveu essa ideia?

ZN – Esta ideia surgiu da constatação de que o sistema segue um pensamento economicista já viciado. O simples facto de se procurarem soluções económicas para uma crise económica é uma clara evidência da existência de um ciclo económico vicioso. Pensar radicalmente nas soluções para estas crises cíclicas teria que partir de uma reformulação do próprio pensamento humano – na sua relação com a realidade. É que se os erros se repetem de forma recorrente, então é sinal que os comportamentos precisam ser alterados, e os comportamentos resultam da prática das ideias. Vejamos, se a sociedade detecta uma crise no indivíduo, o sistema compele-o à psicoterapia no sentido de o integrar socialmente. Neste sentido é a própria sociedade contemporânea que precisa submeter-se a uma profunda psicoterapia no sentido de diagnosticar o que até agora falhou, para que a organização social globalizada se integrasse nos ritmos da natureza. Claro que isso mexeria na organização de toda a estrutura social. Mas da forma que os acontecimentos ocorrem não mexerá à mesma, e com possibilidades de revoltas violentas? Como sair deste círculo vicioso? Essa é a questão essencial…

Tenho reparado que de entre os diversos produtos da actividade humana, a arte é aquela que é entendida como a mais supérflua de todas, devido ao facto de não ter uma função directa (nomeadamente de mercado). Talvez excepção seja o fenómeno de uma arte elitista associada à banca. Mas a verdade é que a esse nível já deixamos de falar de arte e passamos a falar de investimento. E conforme se compreenderá, quando se entra no campo do investimento (com os interesses que o representam) a mensagem e a atitude do artista já não interessam, pois sejam quais forem o importante é o valor monetário representado pela cotação, ou seja, nesse patamar já tão estratosférico a arte assume-se então como um bem mediador de bens e passa a ter a mesma função bolsista de mercado. É assim que o mercado integra a arte no seu circuito. Mas voltando à arte na sua dimensão mais terrena, ela é a exteriorização de uma experiência profunda e fundamental, resultante de uma evolução individual havida pelo contacto e conhecimento da estrutura da realidade, pela apercepção da relação espírito/corpo/Mundo, ela encerra em si muita Ciência e muito conhecimento que poderiam ser postos ao serviço da evolução da espécie humana. No meu entender toda e qualquer formação deveria integrar arte e filosofia. Em vez disso o sistema desvaloriza a experiência artística, marginaliza-a pela indiferença e quando a integra fá-lo segundo os limites habituais, dividindo historicamente a criatividade pelos diversos nichos opinativos especializados. Desta dispersão resultou que a arte deixou de fazer parte dos hábitos culturais das massas, sendo cada vez menor o menor número de pessoas vai às galerias e aos museus. Esta fragmentação do público contribui para que não haja critérios fixos para o que possa ser entendido como arte. Porque cada pequena comunidade decide o que é (ou não) arte e admite ou ignora quem quer no seu meio limitado. Daí resulta uma atitude de “tudo é arte” sem nexo.

JR – Esta é a primeira exposição a solo que a Galeria VerArte contemporânea promove. Como é que o Zé Neto se sente?

ZN – Bom… essa pergunta deveria fazer-me sentir entre a espada e a parede (risos). Não posso dizer que sinta orgulho porque o orgulho é uma deficiência do ego. Talvez a pergunta acerca de a opção pela primeira individual ser feita comigo devesse dirigir-se ao galerista. É claro que não me sinto mal, antes pelo contrário. Quanto ao meu sentir em relação à Galeria VerArte Contemporânea, está expresso nas soluções que ali exponho. O meu sentir manifesta-se pela estética que imprimo aos ambientes onde exponho. Posso dizer que talvez a apercepção da profundidade e uma adequação da arte à contemporaneidade, tenha motivado o estimado galerista Miguel Moreira a dar o seu aval a esta minha exposição individual temática. Por mim considero-a como uma referência bastante positiva no meu trajecto. Um marco, pois aqui eu exponho o meu pensamento relativo à nossa contemporaneidade. Este vai da minha admiração pelo que a tecnologia traz às nossas vidas, ao meu maior cepticismo perante o facilitismo estupidificante e mesmizado, com que a “globalização mercantil” reduz as pessoas a objectos numerados.

JR – Pode-se considerar esta exposição uma sátira à economia global?

ZN – Pode considerar-se uma sátira à globalização – em si – e não apenas à paranóia económica globalizada. Sabe, entendo que o clima determina um temperamento próprio no espírito de cada ser humano. Ora a globalização não tem em conta as diferenças culturais. A globalização é uma consequência encontrada sem um pensamento que a tenha causado. Ninguém pensou antecipadamente a globalização. Ela não teve autor, ou se o teve – foi o interesse ocidentalizado. Ela surgiu espontaneamente a partir da implantação da Internet. Logo tem uma matriz tecnológica e isso é um caso único na História da Humanidade, pois – até aqui – na base das grandes mudanças sempre estiveram as ideias, enquanto que na base desta metamorfose mais violenta que a industrialização, está a gestão da informação. Aliás, não deveríamos chamar-lhe globalização mas sim ocidentalização global – porque é isso que se está a passar. É que o ocidente sempre teve aspirações expansionistas a fim de manter o seu modo de vida. Isso gerou necessidades como os descobrimentos, com as consequentes colonizações. Quando deixou de haver terra por descobrir fizeram-se as grandes guerras. Agora vivemos num globo sem terra por descobrir onde os dirigentes têm consciência de que não podem fazer-se mais grandes guerras. Assim passou-se para um outro plano. O mental, aparentemente unificador de tudo aquilo que se conhece. A Prova desta unificação é que todos os países começam a ter um pensamento ocidentalizado (pela adopção do modelo economicista). Este movimento globalizador até insinua a integração de valores fundantes do passado. Por exemplo: nivela todos por igual. Isto pode facilmente confundir-se com democracia – mas não o é -, porque retira todo o direito à livre escolha. Senão vejamos. A início a tecnologia implanta-se e começa por apresentar-se como um aliciante direito (por exemplo: vemos actualmente a eclusão desses processos ocidentalizados em países pobres da África). Aos poucos passa a transformar-se numa frustrante obrigação integradora, punida socialmente com o ostracismo. Alguém consegue prescindir da tecnologia depois de dela depender no seu dia a dia? Stig Dagerman um autor que eu considero muito dizia «… sempre me escravizou o que deveria tornar-me livre… ». Nunca vi tanto sentido nessas palavras.

JR – A sua Arte nasce da reutilização de matérias, dando-lhes, conjuntamente, uma outra função. Terá esta reutilização a ver com a Crise?

ZN – Tem mas não tão directamente. Como disse no início, o sentido original da palavra “crise” tem a ver com a forma como optamos. Assim tomei a opção de gerir a matéria desta forma. Para mim fazer arte é gerir matéria segundo os nossos conteúdos mentais. Estes conteúdos mentais são um produto de todas as interacções que chegam a nós. Por exemplo, eu costumo passear bastante a pé e nessas minhas voltas dou de caras com toda a espécie de excrescências que o Homem larga no Mundo. Apercebo-me assim do extremo desperdício produtivo da actividade humana. Isso sensibiliza-me esteticamente pela consciência ética de que, a actividade humana está a provocar profundos desequilíbrios globais. Isso obriga-me a integrar na minha obra as matérias que por aí encontro. Isso pode ser entendido como uma estética da materialidade (conforme a Sr.ª Pr.ª Dr.ª Adriana Veríssimo Serrão propôs há uns anos) ou ainda como uma forma de reciclagem. É que reciclando a matéria estamos a praticar uma higiene mental e obrigatoriamente – estaremos a dar passos para reciclar o nosso pensamento.

JR – O Artista dá reproduções alteradas de dólares Americanos aos convidados. Pode fazer um pequeno comentário acerca disto?

ZN – Claro. Como sei que as pessoas vivem angustiadas com a preocupação económica a dominar as suas mentes, quando eu lhes estendo uma nota a primeira reacção é de espanto, curiosidade e quando se dão conta de que se trata de uma versão alterada a reacção é o riso. Devo dizer que ninguém recusou esta oferta. Quanto à mensagem imanente a esta atitude, o papel moeda americano é a referência pela qual se baseia o mercado e a sua imagem actual ainda remonta à independência dos E.U.A., época em que os ideais da revolução francesa foram transferidos para o novo mundo e exponenciados, na fundação dessa nova nação dos homens livres. Tal é por demais evidente na simbologia impressa na nota original (em especial no seu verso). Se as pessoas nunca repararam nisso é porque andam ou a dormir ou em estado de hipnose passiva. Os símbolos aí patentes anunciam ao Mundo uma “Nova Ordem”, no entanto conforme temos visto, esse idealismo caiu totalmente por terra, e actualmente o dólar é um símbolo oposto a tudo aquilo que se fazia anunciar na impressão originária.

JR – Qual a “visão” do Zé Neto, quanto à função do observador nesta exposição?

ZN – Para mim o observador não tem função. Se é observador – observa simplesmente (a obra por exemplo). A função por seu lado é uma relação entre termos e ocorre entre observador e a obra. A função que pretendo estabelecer entre ambos é múltipla e gradual. Em primeiro lugar pretendo desinstalar o observador das suas supostas certezas e fazê-lo pensar de uma outra maneira. Como a minha obra não privilegia a forma, sei que será prestada uma atenção imediata à identificação dos materiais, depois às técnicas – segundo um exercício gradual de aprofundamento reflexivo. A determinada altura a mente já constituirá as suas próprias referências e o sentido de uma história pessoal – associada ao título. Com estes vem uma satisfação sincrética intemporal sentida pelo entendimento. A interpretação parou e surgiu o sentimento estético. Uma verdadeira forma de meditação, da qual surge um inexplicável consolo. A função que aqui pretendi criar é um exercício em que o observador se dê conta de que a arte não é apenas a representação do visível, segundo uma obediência aos estilos dominantes na História da Arte, mas antes deverá ser uma profunda expressão dos conteúdos mais profundos do nosso pensamento (e não só da intelectualidade), cuja leitura é subjectiva e mutável – em função da variação psicológica e das condições de luz do Mundo. Se uma obra de arte tiver alguma função, que seja a de melhorar a disposição das pessoas perante o Mundo. Se o observador tiver alguma função perante a arte, que seja a de se sentir melhorado na sua relação com o próximo e com o Mundo.

JR – O espaço teve influência no modo como os objectos foram dispostos?

ZN – Claro que sim. O meu percurso artístico ocorreu a partir do desenho de Arquitectura. Aí foi onde fundamentei a minha consciência estética, i.é., a arte existe para ser exibida num espaço concreto e não num espaço hipotético (ou mesmo virtual). Assim a arte que fiz para este espaço é adequada a este e somente a este espaço. Sempre que faço uma exposição individual parto de um levantamento arquitectónico. As características do espaço (com os seus “nichos” específicos) numa osmose com a actualidade levam ao encontro do tema e à materialização de uma obra para essa realidade.

JR – No espaço havia uma ambiguidade entre o Expressionismo e a Arte Concreta. O Zé Neto concorda?

ZN – Não concordo – nem discordo. Embora tenha conhecimento dos diversos estilos, há muitos anos que me deixei de preocupar em posicionar a minha obra segundo uma relação desse tipo. Se me preocupasse com isso teria – em primeiro lugar – optado em seguir uma formação académica em arte. Sei que seria bem mais fácil e confortável ter autores (de preferência mortos) em quem eu me pudesse “encostar” e assim me descartasse – por suposta identificação – da plena responsabilidade da minha autoria. Aliás entendo que os estilos são apenas convenções. Não passam de muletas mentais. Soluções fáceis que o sistema encontrou para alcançar um falso domínio especializado do passado, segundo uma ilusória ideia de progresso das artes. O hábito da integração nos estilos e categorias ditadas pela História da Arte é ostracista de toda a novidade, pois obriga a produção actual a fundamentar-se nas referências do passado. Segundo esta visão cronológica dos estilos, se algo não se “encaixa” nessa fórmula, é posto de parte e tratado com indiferença. Os estilos muito bem ordenados são uma construção histórica. Uma verdadeira ficção que importa desmascarar. Devo dizer que não tenho nenhuma aversão aos estilos, mas sou contra fórmulas feitas porque estas são um instrumento repressor. Ainda devo dizer que adopto esta postura porque fiz regredir o meu estudo à análise dos vestígios arcaicos parietais e aí detectei características (como sejam o sfumato e a perspectiva) que a História da Arte só posiciona cronologicamente muitos séculos adiante (sobretudo por influência da matematização e cientifização do conhecimento). Deste estudo resultou a profunda consciência de que na arte contemporânea não tem que seguir uma identificação com os estilos artísticos “oficiais”. Se nos identificarmos de imediato com os estilos propostos caímos num campo alheio a nós mesmos e isso dispersa-nos e desautoriza-nos. Em última instância esse alheamento prejudica a unidade da nossa consciência. Por isso quando me perguntam qual o meu estilo – eu esqueço a resposta e sigo em frente.

JR – Qual a moral da Exposição?

ZN – Ainda bem que me coloca essa pergunta. As minhas exposições não pretendem ter uma moral subjacente. Se eu postulasse uma moral seria sinal de que estaria a contar uma história (as histórias é que têm tradicionalmente uma moral). Mas como o meu projecto é apresentar pensamento, gostaria que se visse mais que uma moral passageira nas minhas propostas. Gostaria que as pessoas entendessem que a arte não tem que estar dominada pelos dogmas, axiomas e cânones seculares baseados na repressão que foi a representação do visível segundo uma utopia antropocentrista, que afirmava que “o homem como a medida de todas as coisas”. Em alternativa nós podemos “ver” a arte como a expressão total dos conteúdos da nossa consciência, e esse exercício ultrapassa em muito uma moral. Convém referir que a palavra “moral” (na sua raiz etimológica latina “MOS”) é apenas aquilo que se diz da boca para fora – como uma espécie de “ciência dos costumes”. Ela apenas dita aquilo que deve ser feito em função de uma obediência à expectativa da conveniência. Em alternativa à moral considero que a práxis (prática consciente) artística deve ter – em si – três dimensões essenciais à formação de uma consciência humana contemporânea, são elas: a ética (que guia a nossa acção em direcção àquilo que deve ser bem feito), a política (que nos guia em direcção ao contacto entre seres humanos) e a metafísica (que nos guia em direcção ao entendimento daquilo a que a vida se destina neste plano da realidade). Assim mais que uma moral eu procuro transmitir uma simples mensagem:
Aos artistas e pensadores; vocês que têm um acesso mais directo à consciência do que é a realidade, descubram o vosso próprio paradigma. Descondicionem-se e assumam-se como genuínos autores/produtores de cultura, segundo aquilo que a vossa consciência vos dita.

A todos em geral; acordem do sonho imposto pela letargia mediática especializada e aproveitem esta vida quanto antes. Tentem conhecer-se o melhor possível. Descubram a vossa matriz. Aí saberão exactamente para que vieram a este Mundo. Sintam-se especiais, únicos, irrepetíveis e sobretudo não creiam em receitas transcendentes milagrosas. Viver é poder experienciar a mais bela e constante possibilidade de escolha – por entre os diversos impasses que se nos apresentam. Neste plano da realidade nada é estável – como nos fazem crer. Apesar das supostas certezas da convenção tudo é transitório.

A uns e outros digo: A crise é essência da vida.



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