Interview with Pedro Valdez Cardozo

pedro valdez cardozoPedro Valdez Cardozo
photo by Rita Burmester



in revista NS
04-07-2009



english | soon



Como pensa a sua obra e como chega à ideia?

Os processos, portanto!

Os processos mentais, não formais.

Eu gosto muito de trabalhar em espaços específicos, que não seja o “white Cube” da galeria. Interesso-me por um contexto, muitas vezes desligado do espaço de exposição, mas relacionado com o território circundante.

É o que aconteceu com a exposição da Artadentro: um trabalho numa região onde nunca expus, onde procurei perceber alguns dos seus contextos gerais e receber o “feedback” de pessoas que lá vivem, a que juntei toda a informação que tinha, desde ser considerada uma colónia dos ingleses, às questões do turismo massificado e, mais recentemente, do projecto “Allgarve”.

A materialização de um projecto vem sempre em consequência de todas estas questões sobre as quais vou pensando. Interessa-me também desenvolver um tipo de arte em que, de alguma forma, esteja politicamente implicada, embora não panfletária. Interesso-me também sobre episódios históricos e estou constantemente a ler e a trabalhar sobre isso.

Filipa Oliveira escreveu que os seus “campos de acção artística estão para além da estética pura” e que procura integrar elementos simbólicos e de crítica social. Procura de alguma forma construir uma ponte entre a História e a contemporaneidade?

Mais do que fazer a ponte, parto de situações históricas que, para mim, faz sentido trazer de novo à contemporaneidade. Tomo-as como referência, mas com o conhecimento e a distância que se tem hoje. Na ultrapassagem da estética pura, isso relaciona-se com a minha intenção de desenvolver uma arte que de algum modo seja implicada socialmente. O simbólico vem do facto de haver objectos que me acompanham desde sempre: objectos de uso diário, do quotidiano e do banal, como baldes e esfregonas, que eu uso recorrentemente.

No seu trabalho, a poética é uma questão importante para si?

Sim, é sempre. Há muitas formas de fazer, mas o meu trabalho tem quase sempre um lado de melancolia, desassossego ou até de cataclismo, porque as peças têm sempre uma aparência de quase destruição. É um jogo que faço recorrentemente, que tem a ver com essa poética e que me interessa.

A relação com o público, do ponto de vista comunicacional, reflecte-se na sua obra e de que forma?

Interessa-me sobretudo o “feedback” das pessoas que não têm as habituais ferramentas de leitura da obra de arte, o que acontece sobretudo fora de Lisboa e do Porto. As leituras que fazem, por vezes são extremamente interessantes. No impacto da peça, não penso.

Além dos aspectos que já referiu, onde investiga? No quotidiano, na vida, na polis,…

Eu penso que é tudo. Há projectos que podem não ter nada disso, digamos, na “folha de sala”, mas que se podem ligar com isso e até com aspectos biográficos meus. É difícil uma peça não ir beber a uma série de fontes para além daquelas que constituem o discurso mais evidente.

Mas ao nível da intenção da pesquisa…

A pesquisa propriamente dita passa por essas questões históricas, mas também há o aspecto formal. Depois de ter definido um conceito…

Mas antes ainda dos aspectos formais, onde é que, intencionalmente, faz a recolha de informação? Além dos aspectos que referiu, relacionados com o quotidiano ou com a crítica social, as questões, por exemplo, da ruralidade também o interessa?

Directamente não, mas também tenho influências desse tipo. Não esteve na base da pesquisa, mas acaba por contaminar o projecto, porque é um referente meu. Os meus factores de pesquisa são, como disse, o contexto, a História, o cruzamento disso com determinadas leituras, …

Dos projectos que desenvolve, resultam várias obras distintas, ou cada obra obedece a um projecto específico?

Tenho projectos que resultam em várias obras, mas normalmente acontece-me quando as obras são de menor escala. Outros projectos resultam só numa escultura ou numa instalação. Tenho os dois processos.

Neste momento está a desenvolver algum projecto novo?

Estou a trabalhar num projecto para desenvolver durante um ano, relacionado com arte folk de culturas que consideramos exóticas, que quero cruzar com aspectos de globalização e mercantilismo, e reproduzir esses objectos com materiais globalizados e capitalizados que não tenham a ver com essa cultura de origem. É um projecto que ainda está na fase de investigação, na parte de pesquisa dos objectos, de elaboração de leituras, e ainda não parti para o desenvolvimento ou para a projecção das peças.



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