O falso mercado das coisas

As palavras “Indústria” e “Criativa”, nunca antes tinham sido utilizadas uma imediatamente a seguir à outra para explicar um fenómeno social que foi percebido nos anos 40 por Theodoro W. Adorno. Isto permitiu estreitar a ilusão sobre as práticas puramente comerciais de um grosso das instituições criativas como a rádio e a televisão, por exemplo. “Os segmentos que constituem hoje o fenómeno Indústrias Criativas são segmentos do sector criativo da Publicidade, Arquitectura, Artes e Antiquários, Artesanato, Design, Design de Moda, Cinema, Vídeo, Software Interactivo de Entretenimento, Música e outras Artes Performativas, Edição, Software, Serviços de Informática, Televisão e Rádio. Havendo relações económicas com outros domínios, tais como o Turismo, Museus e Galerias, Património e Desporto.” A evolução destes segmentos e o aparecimento de alguns desde os anos 40 até hoje, ao contrário do que dizem, não foi nem é tecnológica, isso é apenas uma forma pomposamente artificial que as indústrias têm de enganar o comprador/consumidor e iludi-lo a comprar para se fazer sentir parte de um grupo de pessoas, que são mostradas pelas mesmas indústrias de forma artificial com sendo “o grupo ideal ao qual tu também deves fazer parte!” (esta geralmente é a mensagem que se encontra nas publicidades). Esta é a política de hoje! O que hoje é produzido, só pelo simples facto de ter sido hoje criado, não será necessariamente sempre melhor do que o que foi produzido antes. Na verdade, muitas das coisas que são feitas hoje, são sempre piores que as que foram feitas antes, só que apelam ao interesse através do seu aspecto estético porque foram trabalhados para esse fim. Não é por acaso que o tempo de vida de um objecto ao longo dos tempos tende a vir a ser cada vez menor, para acelerar o processo cíclico de compra em jeito de reiteração do mercado. É um pouco como ser crente numa religião. Nada é concreto, nem mesmo as palavras, e tudo é aceite como se fosse realmente a coisa mais verdadeira do mundo, mas na verdade não o é. Porque é que se acha que a bíblia, por exemplo, é o livro mais lido em todo o mundo? Não será porque quando é lida, é lida para vários grupos de forma padronizada e ritualizada?…

Tomo como exemplo, o comércio de música. Hoje os discos de Vinyl foram completamente banalizados pelos Cd’s, porque tornaram-se demasiadamente grandes para transportar (este foi o pensamento que o mercado incutiu nos compradores) e porque envolviam custos de produção elevados. Já ninguém, ou quase ninguém, compra discos de Vinyl. No entanto e por sua vez, os Cd’s também já têm os seus dias contados por causa dos mp3’s. Se se tomar consciência apenas na qualidade de som que cada “evolução” trouxe, deparamo-nos com a chocante falta de qualidade que os Cd’s nos oferecem comparativamente com os discos de Vinyl, e ainda pior se se comparar o incomparável, ou seja, os mp3’s com os Vinyls. Comprimir, comprimir, comprimir! A onda de som quando é comprimida torna-se menos rica sonoramente. É esta a noção de evolução na distribuição da música no mercado?! Não parece que seja a mais correcta. Pode-se, no entanto, não comprar Cd’s nem mp3’s e gastar o dinheiro bem gasto num concerto. O pior é que até os concertos já apresentam muito pior qualidade que nas décadas libertadoras e criativas 60 e 70, por exemplo, e no final do concerto lá está a famosa barraquinha com Cd’s e t-shirts, porta-chaves e tudo mais que se possa imaginar à venda. Como se pode constatar, em todos os casos, seja os concertos, os discos de Vinyl, Cd’s, ou mp3’s, existe uma desmultiplicação do comércio da música camuflado por um apetrecho progressista da imagem. Hoje uma banda sem imagem não vende! Vejo só uma resposta a isto. O Marketing, porque serve-se sempre de algo que seja concreto ou aparentemente concreto, utiliza maneiras de persuasão para seduzir o público-alvo para um produto. É como acontece nas religiões quando mostram uma idealização de um santo ou de um Deus! É tudo feito em jeito ilustrativo da coisa ou da ideia. Para se ter a noção como é que isto funciona no mercado de uma outra Indústria, desta feita a Indústria do Cinema e a sua distribuição em Portugal, deixo um excerto de um texto de António Quintas, especialista de marketing de Cinema.

“Neste final de ano, acentuou-se uma preocupante dependência do mercado nacional em relação aos blockbusters. O público para outro tipo de filmes parece ter-se afastado das salas, criando um vazio entre “filmes grandes” e “filmes pequenos”. A famosa expressão “pescadinha de rabo na boca”, que designa um ciclo vicioso ou algo que se perpetua por responsabilidade própria, aplica-se como uma luva ao estado presente da distribuição e exibição de cinema em Portugal. Refém do medo da crise e das notícias que profeciam desgraças provenientes da pirataria e da desertificação das salas – papões que regressam ciclicamente – o sector assumiu uma posição defensiva. Nota-se uma diminuição nos orçamentos de marketing dos filmes e apenas uma pequena parte das estreias em Portugal tem uma campanha de lançamento digna desse nome. Os restantes são colocados nas salas com a secreta esperança de que a imprensa fale deles, que a palavra se espalhe e que, apesar de tudo, não dêem prejuízo. É uma atitude que se compreende, numa altura de retracção económica generalizada. No entanto, esta aversão ao risco tem consequências que já se fazem sentir.”

Deste excerto toma-se nota de três coisas: O mercado é um ciclo vicioso que aposta sempre na mesma coisa; a principal preocupação desta indústria é vender sem que tenham prejuízos; A estratégia caiu num fosso lamacento e pretende renovar-se e forma a trazer as mesmas pessoas, mas apresentando menos qualidade técnica.

A outra cara do mercado não passa de um “esquematismo de procedimentos que mostram o mesmo produto (..) mecanicamente diferenciado acabando por revela-lo como sendo sempre a mesma coisa.” Isto origina uma falsa identidade que se apresenta como uma outra escolha, mas que na verdade é apenas uma alteração estratégica de nomes / marcas para embutir um sentimento no comprador / consumidor de sensação de estar a consumir uma coisa completamente diferente da outra. Já Platão dizia que a coisa não se pode confundir com o nome dela mesma nem com a imagem, porque se assim fosse tudo se tornaria confuso e ninguém distinguiria a coisa do nome da coisa nem a coisa da imagem da coisa. Tudo seria duplo de si mesmo. Hoje existe essa confusão, e é sentida nas várias camadas do mercado. Confundir a origem de produção (um só nome, uma só empresa) com o seu desmultiplicamento em vários nomes diferentes (várias lojas com nomes diferentes) é o exemplo que o Adorno deu e que foi citado mais acima e que se aplica na nossa contemporaneidade. Uma cadeia de Hiper-mercados é o reflexo disto, embora não sendo uma Indústria criativa. As prateleiras nunca estão no mesmo sítio para nos obrigar a olhar para outras coisas que não foram percebidas numa visita anterior. Os folhetos apresentam promoções de coisas que estão perto de passar o seu prazo de validade, ou existem em pouca quantidade, ou estão já há demasiado tempo para ser vendidas. Os packs dos produtos obrigam-nos a levar um produto-extra, por isso pagamos mais. Na secção das frutas e legumes, já poucas coisas se vendem avulso e apresentam-se cada vez mais com menor qualidade. As marcas brancas!… E por fim, todos os Hiper-mercados são um mesmo.

Para além disto o sistema falsamente faz pensar que o acesso é múltiplo e de escolha ampla e em alguns casos é livre, mas de facto o acesso nunca é livre. Um download grátis na Internet nunca chega a ser grátis, por exemplo, porque o serviço de Internet é sempre pago só pelos simples facto de ser utilizado. No fundo nós neste sistema somos como o burro que corre atrás de uma cenoura. Por muito que o burro corra, não vai conseguir apanhar aquela deliciosa e alaranjada cenoura que diante dos seus olhos se apresenta. Por muita sorte que tenha conseguirá apenas aquelas desinteressantes folhas verdes da cenoura, que por se balançarem deu a única oportunidade para que o burro pudesse contentar-se com uma ou duas trincadelas das folhas.

Vivemos no sistema da “montage” e das “collages” das mesmas coisas repetidamente repetidas que se repetem num loop, mas com o nível de espectacularidade no extremo, tornando tudo muito confuso e pouco definido para que o comprador / consumidor não saiba concretamente o que realmente está a consumir. Daí usar-se cada vez mais uma frase abre-olhos: “Hoje ninguém dá nada a ninguém” ou “isso é fogo-de-vista”. A bem dizer, hoje há muitas coisas que são feitas abandalhadamente. A despreocupação na apresentação das coisas convenientemente está implícita.



Relacionado com o texto A Arte e a Finança



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2 comments

  1. O texto tem muitos aspectos referidos de modo interessante, todavia, já não foge da vulgaridade quando faz referências comparativas com a religião e igualmente quando anui com a incorrecta utilização das palavras, gordas e cheias de ranço. ‘Temos pena’: “indústrias criativas” é um artifício. Não existem.

  2. N… Ver maisão li o texto todo, reconheço….também o meu direito à parcialidade, se me dão licença…todos os argumentos recorrendo à religião, estão na moda , mas desvirtualizam o autor tanto por falta de sensibilidade como de ignorância.É de notar que quanto mais uma sociedade se priva de referências do sagrado, mais o lado mecanicista e redutor da propria natureza humana(o que é gravíssimo) se acentua, recorrendo-se a temas e produções que apelam aos sentidos ou não nego, à interessante condição humana, mas deixando apenas questões e não soluções. Dirão…não tem nada a ver com o texto, não é moderno…pois bem, quem disse que uma sociedade, só porque se excede e ultrapassa os seus póprios limites, está à partida condenada? Agnosticismo conduziu, no meu ponto de vista a várias derrotas da estética…não que a religiosidade humana tenha sido sempre pura ou legitima…mas sacralizar a produção, de certo mudaria as regras…aceito, no entanto, (a continuar)…


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