O Espaço [Space] – Claudio Parmiggiani


“Na última Bienal de Veneza decidi retira-la da mostra. Achei que a forma como a obra estava a ser exibida era, para mim, uma forma inaceitável de a apresentar. (…) levei-a nos braços, como de uma criança se tratasse. Senti-me nesse momento como um animal que havia ferido qualquer coisa de vital e quisesse protegê-la de algo perigoso, e quis levá-la para um sítio secreto

Claudio Parmiggiani,
in “Stella, sangue, spirito”,
Paris, Ed. Actes Sud, 2004, Pag. 244


Claudio Parmiggiani sentiu o que a sua peça “Escultura de sombra” lhe estava a pedir. O que lhe era pedido acabou por ser de uma forma tão acentuada outro espaço, por não se ter adaptado ao lugar que lhe era estranho, estrangeiro. Claudio Parmiggiani entende o espaço circundante à obra como uma parte física da obra, e como elemento constitutivo do trabalho. Por isso, o trabalho vive ao máximo de si só num determinado espaço, porque esse espaço é a fonte da sua vida. Sem ele a obra de arte é impossível ser mostrada. O espaço que dá a obra ao mundo, é o mesmo que lhe deu origem, e segundo Claudio, ela não deve ser extraída desse espaço.


A obra de arte para Parmiggiani é como um ser vivo. Quando se encontra num novo espaço interroga-se, altera-se, transforma-se.

“Pensei que o corpo da terra fosse o melhor museu para acolher uma escultura. Uma escultura deixada dentro da terra como se fosse uma semente (…) nascida para nenhuma exibição, para nenhum público.”

Claudio Parmiggiani,
in “Stella, sangue, spirito”,
Paris, Ed. Actes Sud, 2004, Pag. 266


Esta relação obra – espaço, é uma ideia que enfatiza ainda mais a afirmação pós-modernista de que a arte se aproximava mais da vida, que o artista se devia servir dos elementos banais, dos fenómenos da sociedade da época em que vive. A obra de arte é entendida como um órgão germinado no espaço, como se o espaço assumisse um papel de ventre materno.


Relacionado com [Related with] – Arte efémera [Ephemeral art]


“In the Venice Biennale I decided to take it off the exhibition. The way the work was being shown was, for me, unacceptable. (…) I took it in my arms, like a little child. At that moment, I felt like an animal that had hurt something vital and wanted to protect it from danger; I wanted to take it to a secret place.”

Claudio Parmiggiani,
in “Stella Sangue Spirito”.
Paris, Actes Sud, 2004, p. 244

Claudio Parmiggiani felt his “Scultura d’ombra” beckoned what, in an emphasised way, turned out to be a different space because this work of art didn’t fit where it was: it felt like a stranger, an outsider. Parmiggiani sees the surrounding space of an artwork as a physical part of it, and as an intrinsic element within it. Therefore the work of art functions in a certain space because it’s its life source. Without it, the art can’t be displayed. The space that shows the world the work of art it’s the same that gave birth to it, and according to Claudio, it shouldn’t be taken away from it.
For Parmiggiani, the work of art is like a human being. When it finds a new space, it questions itself, changes itself, and transforms itself.
“I thought the earth was the best museum to take a sculpture in; a sculpture left inside the earth as if it was a seed (…) born to no exhibition, to no audience.”

Claudio Parmiggiani,
in “Stella Sangue Spirito”.
Paris, Actes Sud, 2004, p. 266

This relationship between artwork and space is an idea which gives even more emphasis to the concept that art is closer to life, that the artist should use trivial elements, the society’s phenomena from his time. The work of art is seen as an organ that germinates within space, as if space assumed the role of a mother’s womb.



Escrito por [Written by]: Jorge Reis


Translated by: Maria José Anjos




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A Temporalidade em [The timeliness in] Claudio Parmiggiani


polvere

Título [Title]: Polvere
Categoria [Category]: Installations
Materiais [Materials]: Fire, soot and smoke on wood
Dimensões [Dimensions]: h: 260 x w: 945 x d: 4 cm


Na década de 70, com a sua série “Deslocações”, Parmiggiani presta uma homenagem ao silêncio e às atmosferas impenetráveis de Orazio Morandi, astrólogo italiano, um dos primeiros mestres de Galileu Galilei, e actualmente mestre espiritual de Claudio Parmiggiani; a ausência do objecto, nesta série, é revelada pelas formas que ficaram marcadas na parede. A temporalidade vem aqui na medida em que o que é apresentado ao espectador torna-se no resultado da ausência desses mesmos objectos. É, portanto, um apelo à memória do espectador, numa atmosfera de mistério. O tempo é “aquele que reduz a acção ao traço e à essência/ausência”. Dominar o tempo significa intelectualmente capturá-lo e inclui-lo no trabalho. Desta forma o tempo é incluído no trabalho de Parmiggiani através de uma acção passada, dando lugar a um tempo onde só existem os indícios dessa acção que faz parte do passado, tornando o tempo nulo no instante em que a obra é apreendida pelo observador: “…é óbvio que o passado naturalmente faz parte de nós, como igualmente o é a natureza da presença e da memória de um antigo para um italiano. Passado presente e futuro numa obra vivida numa só dimensão onde o tempo não existe.” Esta operação é muito semelhante à de um alquimista. O objecto desaparece através de uma acção de um elemento natural como o é o fogo ou o fumo por exemplo e neste caso em específico.



A impressão que “Labirinto de vidros partidos” nos dá, relaciona-se com a nossa memória que tem origem nos indícios de violência que se fazem sentir. O pavimento está repleto de fragmentos afiados, que impossibilitam a circulação do espectador; nada resta para contemplar a não ser o que ficou de um acto destrutivo. “O que restou”, a ruína, memória, é o que é oferecido à experiência que é feita a partir dos fragmentos, como parte de uma unidade agora inacessível. O labirinto é uma construção do caos de uma forma organizada. Neste caso o labirinto de Parmiggiani foi construído segundo esta teoria certamente, contudo o que é mostrado é o pleno caos de uma unidade que foi corrompida por aquele acto.






















photo by Pierre Wachholder

and

photo by Philippe Agéa

No mosteiro Bridgettines em Bruxelas, Claudio Parmiggiani apresentou uma instalação completamente esmagadora. A instalação é constituída por um sino e por uma pirâmide de livros. Aqui o apelo ao espectador é feito em memória de um acto profano que havia acontecido neste mosteiro onde foi destruído todo o arquivo bibliotecário. 40.000 livros são apresentados em forma de pirâmide evocando um misticismo e sintetizando, simbólicamente, o sistema humano na sua utilização do livro como ferramenta para fortalecer as suas raízes do conhecimento. Na base desta pirâmide de livros estão livros que nos dão o indício de que anteriormente houve o princípio de um incêndio que foi interrompido. Este indício remonta a história do acto profano neste espaço.


With his series “Delocazione”, from the 70s, Claudio Parmiggiani paid homage to silence and the impenetrable atmospheres of Orazio Morandi, an Italian astrologist and one of the first mentors of Galileo Galilei. Morandi is Parmiggiani spiritual mentor. The absence of objects in this series is revealed by the shapes in a wall; the temporality witnessed by the visitor is a result of the absence of those objects. It then becomes an appeal to the visitor’s memories in this mysterious surrounding. Time is “what reduces action to trace and essence/absence”. Taking over time means to capture it intellectually and include it in work. This is how time is included in Parmiggiani’s work – through a previous action, replacing a time where there were only traces of that action, which belongs to the past. Time becomes null in the moment the visitor apprehends the artwork: “…it is obvious that the past is part of the human being, just like the nature of a presence or a memory of an elder is natural to an Italian. Past, present and future in a work of art is taken into a dimension where time does not exist.” This operation is similar to the one of an alchemist. The object disappears through an action of a natural element, like fire or smoke in this case

“Labirinto di vetri rotti” gives the impression of relating to the visitor’s own memories, and this feeling comes from signs of violence. The pavement is covered with sharpen fragments of glass, which make the visitor’s motion impossible; there is nothing to contemplate apart from what’s left of a destroyed action. “What’s left”, the ruins, the memory, is what’s offered to the experience drawn by the shattered glass, as if they were part of a unity, now inaccessible. The labyrinth is an organised construction of chaos. In this case, Parmiggiani’s labyrinth was built from a unity corrupted by that action.

In the Chapelle des Brigittines in Brussels, Claudio Parmiggiani presented a smashing art installation. “L’Isola del Silenzio” consists on a bell in bronze placed on the floor in front of an irregular pyramid of books. The installation triggers the visitor’s memories of the profane actions that happened in that monastery, where the entire library was destroyed. 40,000 books sit in a pyramidal shape, evoking mysticism and symbolically synthesising the human system in its book usage as a tools to strengthen the roots of knowledge. The books at the bottom of the pyramid give the visitor the indication of an interrupted fire, which is the sign of the profane history of that space.



Escrito por [Written by]: Jorge Reis


Translated by: Maria José Anjos




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Claudio Parmiggiani – BIO


Claudio Parmiggiani


Claudio Parmiggiani nasceu em Luzzara, em 1943. Formou-se no Instituto de Belas Artes de Modena (1958 -1960), e finalizou a sua formação em Bolonha, onde estabelece um relacionamento de amizade com George, mestre de Gian Luigi Morandi, musico italiano nascido a 1944 que representou Itália na Eurovisão no ano de 1970. Daqui Parmiggianni arranjaria algumas influências, como mais tarde viria a influenciar-se, mais no sentido ético que estilístico, a partir do poeta italiano Emilio Villa, particularmente na concepção do relacionamento da arte com a vida.

Na segunda metade dos anos 60 Parmiggiani vivia em 63 um clima de intensa colaboração entre artistas e poetas. Neste período, marcado também pelo encontro com Emilio Villa, poeta italiano (1914 – 2003), Claudio Parmiggiani trabalha até à década de setenta e realiza trabalhos como a “Tabela temporal” – 1968 – , “Atlas” (1970), estando os trabalhos do período 1967 – 70 carregados de uma poetização do espaço. Realizou também trabalhos que são envolvidos por luz e espaço, como por exemplo a “luz, luz, luz” (1968 ) e “Labirinto” de vidros partidos (1970).

Durante os anos 70, os seus trabalhos têm origem no espaço onde são apresentados, na procura de uma nova dimensão metafísica entre a relação Obra – Espaço. Em 1975 Parmiggiani inicia planos para a obra “Uma escultura”, cujas quatro partes foram colocadas em quatro pontos geográficos da Terra (Itália, Egypto, França e Checoslováquia). Este trabalho foi finalizado em 1991.

Entre os seus trabalhos permanentes no que ele chama de museu Terra (natureza) estão: “A floresta vê-te e ouve-te” no parque de Pourtalés, Estrasburgo (1990), a “Baliza de Islândia”, uma luz colocada permanentemente no deserto islandês e “Melancolia II” em (2002).

São numerosas as exibições que foram feitas em Itália e no resto do mundo: Tóquio, Veneza, Nova Iorque, Paris – em todas elas uma atenciosa dedicação da relação entre arte e poesia (poesia concreta), e ainda mais em, Paris, Tóquio, Innsbruck, Marselha, Viena, Roma, Berlim, Nova Iorque, Milão, Barcelona, Maastricht, Boston, Frankfurt, Zurique, e Bruxelas.

Entre estas exibições há também as realizações cenográficas para o Teatro Municipal de Reggio Emilia, “Pinturas nos arcos” (1992), “Comédia” (1998), e no teatro romano de Verona, “Cabiria” (1994); Incluindo também publicações de vários livros: “Atlas temporal e mesas” (1968), “Deslocação, Abstracção, Branco” (1970), “Alfabeto” (1975), “Eraclito pintado” (1976), “Poesias” (1981), “A cor do sangue” (1988), “Papeis brancos, a reforma da geometria” (1990), “Estrela, Sangue, Espirito” (1995), “Pó” (1998); e ilustrações dos livros de Emilio Villa, Nanni Balestrini e Corrado Costa, Mario Diacono, Charles Baudelaire e William Butler Yeats.

O seu trabalho não estaria completo se não houvesse uma referência aos vídeos: “Deslocação” (1974), “A torre e a Terra” (1989), “A escultura” (1992), “A Floresta vê-te e ouve-te” (1992), “Sem Titulo” (1995).


Claudio Parmiggiani was born in Luzzara, in 1943. He trained at the Istituto Statale di Belle Arti of Modena, (1958-1960) and finished his studies in Bologna. There he met Giorgio Morandi, an Italian musician born in 1944 who represented Italy in the Eurovision contest in the year of 1970. Morandi became Parmiggiani mentor and influenced him in a more stylistic rather than ethical sense, particularly about his own way of conceiving art in its relationship with life.

In the 60s, Parmiggiani lived an intense collaboration with artists and poets. It was during this period that Parmiggiani met the Italian poet Emilio Villa (1914-2003) and produced “Tavole temporali” (1968) and “Atlante” (1970). From 1967 until 1970 his artworks are characterised by space poetry. In his pieces “Luce, luce, luce” (1968) and “Labirinto di vetri rotti” (1970), light and space are put together.
During the 70s, his works were related to the space they were presented at, in search for a new metaphysical dimension between artwork and space. In 1975, Parmiggiani started “Una scultura”, an artworks divided in four parts, each placed in a different part of the globe (Italy, Egypt, France and Czech Republic). This work was finished in 1991.

Between his permanent works in what he calls the “earth museum” (nature) are “Il bosco guarda e ascolta” (1990) in the Parc de Pourtalès, Strasbourg, “Il faro d’Islanda” (2000), a light placed in a tower in a deserted land in Iceland, and “Melancolia II” (2002).
Many exhibitions have taken place in Italy and throughout the rest of the world: Tokyo, Venice, New York, Paris, Innsbruck, Marseilles, Vienna, Rome, Berlin, Barcelona, Maastricht, Boston, Frankfurt, Zurich and Brussels. In all of them, there is a noticeable dedication to the relationship between art and poetry (concrete poetry).

In-between exhibitions, Parmiggiani also worked as a costume and set designer in “Pitture per archi” (1992) and “Comoedia” (1998) for the Municipal Theatre Valli of Reggio Emilia and “Cabiria” (1994) for the Roman Theatre of Verona. He also published several books: “Atlante e Tavole temporali” (1968), “Delocazione, Astrazione, Blanc” (1970), “Alfabeto” (1975), “Eraclito” (1976), “Poesie dipinte” (1981), “Il Sangue del Colore” (1988), “Carte nere, Geometria reformata” (1990), “Stella Sangue Spirito” (1995), “Polvere” (1998); and did book illustrations for works by Emilio Villa, Nanni Balestrini and Corrado Costa, Mario Diacono, Charles Baudelaire and William Butler Yeats.
His work wouldn’t be completed without a few video projects: “Delocazione” (1974), “La torre e Terra” (1989), “Una scultura” (1992), “Il bosco guarda e ascolta” (1992) and “Untitled” (1995).


O Espaço [Space] – Claudio Parmiggiani


A Temporalidade em [The timeliness in] Claudio Parmiggiani



Escrito por [Written by]: Jorge Reis


Translated by: Maria José Anjos




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Exposição [Exhibition] – Claudio Parmiggiani







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Vernissage 19 Janeiro 2009 às 18.30
[Vernissage 19 January 2009 at 06.30 PM]


Exposição patente até 28 de Fevereiro de 2009
Exhibition from 19 January to 28 February





























Claudia Gian Ferrari Studio di Consulenza
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Milano 20121
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